Em processos seletivos técnicos, avaliações de performance ou até em análises informais entre pares, um padrão recorrente chama a atenção de qualquer desenvolvedor experiente ou arquiteto de software: repositórios públicos com um único commit intitulado "first commit", acompanhados de um README.md padrão gerado automaticamente por frameworks como React, Angular, Vue.js, Laravel, Spring Boot, Quarkus, NestJS ou AdonisJS.
Esse padrão, embora comum, carrega sinais claros, não apenas sobre o projeto em si, mas sobre o nível de maturidade profissional de quem o publica. O problema não está em fazer cursos online, tampouco em utilizar boilerplates ou scaffolds. O problema está em não compreender o repositório como um artefato profissional, parte essencial do portfólio e da narrativa técnica do desenvolvedor.
No presente artigo, vamos analisar de forma argumentativa por que commits granulares, históricos evolutivos e READMEs bem escritos são indicadores concretos de senioridade, pensamento arquitetural e responsabilidade profissional.
O repositório como evidência de pensamento técnico
Um repositório Git não é apenas um local de armazenamento de código. Ele é, essencialmente:
- Um registro histórico de decisões técnicas
- Uma linha do tempo da evolução de uma solução
- Um documento vivo de arquitetura, domínio e trade-offs
Quando um projeto possui apenas um commit genérico, o que se perde não é apenas a granularidade do código, mas a capacidade de avaliação do raciocínio técnico. Um arquiteto, um Tech Lead ou um recrutador sênior não avalia apenas o que foi feito, mas como foi feito.
E o "como" está nos commits.
Commits não são burocracia: são comunicação
Existe um equívoco comum entre desenvolvedores iniciantes (e até intermediários e avançados): tratar commits como uma obrigação mecânica, algo que "precisa existir" apenas para subir o código ao repositório remoto.
Na prática, commits são mensagens de comunicação assíncrona entre:
- Desenvolvedores do time
- O "eu do futuro"
- Revisores de código
- Auditores técnicos
- Ferramentas de CI/CD
- Gestores técnicos
Um histórico saudável de commits revela:
- Implementação incremental de features
- Correções de bugs contextualizadas
- Refatorações conscientes
- Ajustes arquiteturais
- Evolução de requisitos
Um único "first commit" apaga toda essa narrativa.
Projetos de curso vs. projetos autorais
Não há absolutamente nenhum problema em publicar projetos de cursos. O problema surge quando eles são apresentados como projetos autorais sem qualquer contextualização.
Projetos de curso geralmente têm características claras:
- Commits únicos ou genéricos
- README padrão do framework
- Ausência de contexto de negócio
- Código muito similar a centenas de outros repositórios
- Falta de decisões arquiteturais explícitas
Já projetos autorais, mesmo simples, costumam apresentar:
- Commits por feature ou tarefa
- Ajustes progressivos de estrutura
- README explicativo
- Escolhas tecnológicas justificadas
- Código com identidade própria
Para um arquiteto de software, essa distinção é evidente em poucos minutos de análise.
README.md: o documento mais subestimado do projeto
O README.md é, frequentemente, o primeiro e às vezes único ponto de contato de alguém com o projeto. Ainda assim, muitos repositórios mantêm:
- README padrão do React (npm start, npm test, etc.)
- README vazio
- README genérico sem contexto
Isso é um erro estratégico.
Um bom README não serve apenas para explicar como rodar o projeto. Ele serve para responder perguntas fundamentais:
- Qual é o objetivo do projeto?
- Qual problema motivou a solução?
- Capacidade de análise
- Entendimento de domínio
- Clareza de propósito
- Quais decisões técnicas foram tomadas e por quê?
- Stack tecnológica utilizada
- Linguagem
- Frameworks
- Banco de dados
- Ferramentas auxiliares
- Infraestrutura (quando aplicável)
- Como configurar e executar o projeto localmente
- Pré-requisitos
- Variáveis de ambiente
- Scripts de execução
- Observações específicas do ambiente
Todo projeto nasce de um problema. Um README profissional deixa isso explícito.
Exemplo:
Isso demonstra pensamento orientado a problema, não apenas a tecnologia.
Arquitetura começa no problema, não no framework.
Explicitar o contexto inicial demonstra:
Não basta listar tecnologias. É preciso justificar.
Exemplo:
Por que React e não Angular?
Por que PostgreSQL e não MySQL?
Por que arquitetura monolítica e não microsserviços?
Essa seção diferencia um executor de código de um engenheiro de software.
Aqui sim entra a lista objetiva:
Mas sempre com coerência com o problema proposto.
Essa é a parte que muitos confundem como sendo "todo o README".
Ela é importante, mas não suficiente.
Inclua:
Isso demonstra preocupação com reprodutibilidade, um conceito fundamental em engenharia de software.
Commits granulares refletem maturidade
Vamos ser diretos:
Desenvolvedores seniores não trabalham com um commit único por projeto.
Commits granulares indicam:
- Organização mental
- Capacidade de dividir problemas
- Disciplina técnica
- Experiência com trabalho colaborativo
- Familiaridade com revisão de código
Exemplos de bons commits:
- feature: adicionar cadastro de usuários
- fix: corrigir cálculo de saldo negativo
- refactor: separar camada de serviço
- docs: atualizar README com instruções de setup
Esses commits contam uma estória. E arquitetos avaliam estórias.
O impacto disso em processos seletivos
Em entrevistas técnicas mais maduras, o repositório Git é analisado como:
- Evidência prática de experiência
- Fonte de discussão arquitetural
- Base para perguntas profundas
Um repositório com um único commit limita drasticamente essa conversa. Já um projeto bem versionado permite perguntas como:
- "Por que você refatorou essa parte?"
- "O que motivou essa decisão?"
- "Como você lidaria com esse código em escala?"
Ou seja: abre espaço para avaliar senioridade real.
Frameworks não definem senioridade
Outro ponto crítico: usar React, NextJS, Angular, Vue.js, Laravel, Spring Boot, Quarkus, NestJS, AdonisJS não torna ninguém automaticamente sênior. Frameworks são ferramentas. O que define maturidade é:
- Capacidade de modelar domínio
- Clareza arquitetural
- Organização do código
- Evolução incremental
- Comunicação técnica (commits e README)
Manter apenas o README padrão do framework passa a mensagem de que o projeto não foi apropriado pelo desenvolvedor, apenas executado.
O repositório como produto profissional
Um arquiteto de software enxerga o repositório como um produto em si. Mesmo projetos pessoais seguem padrões profissionais porque refletem:
- Identidade técnica
- Rigor conceitual
- Postura profissional
Isso é especialmente relevante para quem:
- Busca posições sênior
- Atua como PJ
- Trabalha como consultor
- Quer se posicionar como especialista
Seu GitHub é, na prática, um cartão de visitas técnico.
Qualidade não está na quantidade de projetos
Outro erro comum é tentar compensar falta de profundidade com volume de repositórios. Dez projetos com:
- Um commit cada
- README genérico
- Código semelhante
Valem menos do que um único projeto bem documentado, versionado e contextualizado.
Arquitetura é profundidade, não superficialidade.
Considerações finais
Repositórios com apenas um "first commit" e README padrão não são, por si só, um problema técnico. Eles são um sinal. Um sinal de que o desenvolvedor ainda não internalizou que:
- Código é comunicação
- Versionamento é narrativa
- README é documentação estratégica
- Projetos contam histórias profissionais
Como Analista Desenvolvedor Sênior (Full Cycle Developer), afirmo: não é a stack que revela maturidade, é o cuidado com o todo. Commits bem feitos, README bem escrito e clareza de propósito são marcas de quem entende que software é mais do que código, é engenharia, contexto e decisão.
Se o seu repositório fala pouco, ele será interpretado como pouco.
Faça com que ele fale por você.
Feito!

